Você sabe calcular o juro composto de um financiamento? Sabe a diferença entre renda fixa e renda variável? Consegue montar um orçamento doméstico e mantê-lo por mais de um mês? Se a resposta para pelo menos uma dessas perguntas for não, você está em boa companhia — e provavelmente também não aprendeu nada disso na escola.
A ausência
de educação financeira no currículo escolar brasileiro é um problema crônico e
de consequências bem documentadas. Segundo a Confederação Nacional do Comércio
(CNC), 78,8% das famílias brasileiras estão endividadas, sendo o cartão de
crédito a principal fonte de dívidas. Uma pesquisa do C6 Bank revelou que
apenas 21% dos brasileiros receberam algum tipo de educação financeira durante
a infância. E um dado da OCDE aponta que 45% dos adolescentes brasileiros de 15
anos apresentam baixo desempenho em alfabetização financeira. São números que
revelam um ciclo que começa cedo e se perpetua por gerações.
O que a escola ensina — e o que ela não ensina
O currículo
escolar brasileiro, regulado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), inclui
menções à educação financeira como tema transversal — o que significa que pode
aparecer em diferentes disciplinas, mas não necessariamente de forma
estruturada ou obrigatória. Na prática, a abordagem é irregular: escolas
privadas tendem a ter programas mais organizados, enquanto as públicas dependem
da iniciativa de cada professor ou gestão escolar.
Um estudo
publicado na Revista Foco em 2025, que analisou 15 escolas na região
metropolitana de São Paulo e ouviu 450 alunos do ensino fundamental e 45
professores, encontrou uma disparidade significativa entre redes pública e
privada. Mais alarmante: 73% dos professores entrevistados relataram falta de
preparação para tratar de temas financeiros em sala de aula. Sem formação
adequada, mesmo as boas intenções esbarram na prática.
O que está sendo feito — e o que ainda falta
O cenário,
no entanto, começa a mudar. O Banco Central opera desde 2020 o programa
Aprender Valor, voltado inicialmente ao ensino fundamental público, e que
passou a aceitar escolas privadas a partir de 2024. Em 2026, o programa se
expande para o ensino médio, com a construção de uma Matriz de Competências de
Letramento Financeiro específica para essa etapa, desenvolvida em parceria com
o MEC, a CVM, a Anbima e o Sebrae. O objetivo é que alunos de 15 a 17 anos
aprendam não apenas a controlar o orçamento pessoal, mas também conceitos de
investimentos, previdência e proteção contra fraudes.
No Congresso
Nacional, o tema ganhou força legislativa. O PL 1.510/2025, do senador Nelsinho
Trad (PSD-MS), propõe tornar a educação financeira matéria obrigatória na
educação básica. A proposta está alinhada a recomendações da OCDE, que orienta
a inserção do tema nos currículos escolares desde os primeiros anos. Para o
senador Izalci Lucas, que também defende projetos semelhantes, a educação
financeira é uma questão de prevenção: ensinar desde cedo é mais barato — e
mais humano — do que lidar depois com o endividamento.
Experiências que funcionam
No Paraná, o
Colégio Estadual Duque de Caxias, em Corbélia, é um exemplo de como a educação
financeira pode ganhar vida nas salas de aula. Desde a implementação do Novo
Ensino Médio, os alunos das três séries aprendem orçamento, investimentos e
planejamento de carreira. Em 2025, a escola desenvolveu uma ação com a Agência
do Trabalhador local: os alunos simularam entrevistas de emprego, elaboraram
currículos e fizeram seleções profissionais, tudo conectado aos conteúdos
financeiros estudados. A diretora da escola descreve o impacto: os alunos
passam a entender na prática o que é receber um salário, pagar contas e
planejar gastos.
No DF,
algumas escolas já aderiram ao Aprender Valor e começam a integrar o tema às
aulas de matemática. Mas ainda são iniciativas pontuais, dependentes da vontade
de gestores e professores específicos — não de uma política sistêmica e
continuada.
O que os especialistas recomendam
Para o
economista Naércio Aquino Menezes-Filho, da USP, a melhor forma de introduzir o
tema não é criar uma nova disciplina, mas integrar os conceitos financeiros às
matérias já existentes — especialmente matemática e geografia econômica.
Calcular o juro de um empréstimo, entender o custo da passagem de ônibus,
montar um orçamento familiar fictício: são exercícios simples que conectam o
conteúdo acadêmico à realidade cotidiana dos alunos.
A lição que
fica é clara: o Brasil não pode continuar formando gerações sem ferramentas
para lidar com o dinheiro. Em Brasília, onde o funcionalismo público é parte
central da economia e onde jovens de todas as classes sociais convivem no mesmo
espaço urbano, essa lacuna tem nomes e rostos conhecidos. Mudar isso começa na
escola — e começa agora.
Comunicação DF News
