Imagine uma
escola que começa às 7h30 e termina às 17h30. Dez horas diárias, de segunda a
sexta. Nesse tempo, além das disciplinas tradicionais, os alunos aprendem
programação, participam de atividades culturais, esportivas e de projeto de
vida — e ainda saem com um diploma técnico no bolso. Essa é a realidade do
Centro de Ensino Médio Integrado (Cemi), presente em algumas regiões do
Distrito Federal, e que representa a face mais ambiciosa da educação em tempo
integral no DF.
A expansão
das escolas de tempo integral é uma das apostas mais discutidas da educação
pública brasileira nos últimos anos. No Distrito Federal, os números mostram
crescimento: o número de alunos matriculados em escolas de tempo integral
saltou de 46.702 em 2019 para 51.217 em 2024, um aumento de 9,7%. A rede
pública distrital conta hoje com 358 unidades escolares que ofertam educação em
tempo integral, atendendo mais de 57 mil estudantes em todas as 14 Coordenações
Regionais de Ensino.
Como funciona na prática
No DF, a
educação integral funciona sob diferentes formatos. O mais completo é o Proeiti
(Projeto de Educação Integral em Tempo Integral), que oferece jornada de dez
horas diárias, cinco dias por semana, para 100% dos alunos da unidade escolar.
Outro modelo é a parceria entre Escola Classe e Escola Parque, tradicional em
Brasília desde o projeto original de Anísio Teixeira, que divide as atividades
curriculares e as práticas culturais e artísticas entre duas instituições. Há
ainda a Ampliação Progressiva de Tempo, que atende grupos de estudantes por
pelo menos três dias na semana, com nove horas diárias.
O
investimento do GDF na infraestrutura dessas escolas também cresceu. Em 2024,
foram aplicados R$ 15,5 milhões na manutenção das unidades de educação integral
e outros R$ 7 milhões na aquisição de equipamentos tecnológicos. No âmbito
federal, o Programa Escola em Tempo Integral do MEC prevê alcançar 3,2 milhões
de novas matrículas em todo o Brasil até 2026, com investimento de R$ 4
bilhões.
A voz de quem está dentro da escola
Para muitos
estudantes, a escola de tempo integral representa uma transformação real de
trajetória. Juliana Dantas, de 16 anos, moradora do Cruzeiro Novo, deixou a
rotina de meio período e passou a estudar no Cemi. Além das disciplinas
tradicionais, ela passou a ter contato com programação e tecnologia — áreas que
despertaram seu interesse profissional. Lucas Tortoretti, de 15 anos, enxerga
na escola de tempo integral um ambiente mais produtivo para o seu dia a dia.
Sara Teixeira, de 17 anos, moradora de Ceilândia, planeja usar a formação
técnica como base para empreender na área de estética.
Esses
depoimentos ilustram o potencial do modelo — mas também revelam que o impacto
depende muito da qualidade da oferta em cada escola. Uma jornada ampliada que
seja apenas mais horas da mesma aula não muda nada. O diferencial está no que
se faz com esse tempo.
Os desafios que persistem
Apesar dos
avanços, especialistas e educadores apontam obstáculos estruturais que a
simples expansão de vagas não resolve. O primeiro deles é a formação docente.
Professores preparados para cada componente curricular são escassos, e muitos
relatam falta de capacitação para lidar com metodologias de educação integral.
O segundo desafio é a infraestrutura: nem todas as escolas têm espaço físico
adequado para receber alunos por dez horas — bibliotecas, refeitórios, quadras
cobertas, salas de arte e música são necessidades básicas que ainda faltam em
muitas unidades.
Há também
uma questão social relevante. O público prioritário do tempo integral são
estudantes em situação de vulnerabilidade, com histórico de defasagem ou risco
de evasão. Mas para essas famílias, uma escola que funciona o dia inteiro só é
viável se houver alimentação de qualidade, transporte seguro e um ambiente que
realmente faça diferença. Sem esses elementos, a escola de tempo integral pode
se tornar apenas uma promessa no papel.
O caminho à frente
A educação
em tempo integral no DF está crescendo — e os dados mostram que está no caminho
certo. Mas para que esse avanço se consolide como política pública de
qualidade, e não apenas como expansão quantitativa de matrículas, será preciso
investir simultaneamente em formação de professores, infraestrutura escolar,
alimentação, transporte e participação da comunidade. A escola de tempo
integral mais eficaz não é a que mantém o aluno dentro do muro por mais horas —
é a que usa esse tempo para transformar vidas.
Comunicação DF News
