No dia 21 de abril de 2026, Brasília completa 66 anos. Uma cidade que nasceu de um sonho audacioso — o de interiorizar o Brasil, levá-lo ao coração do país — e que, décadas depois, ainda carrega a contradição entre a grandiosidade dos seus monumentos e os desafios do cotidiano de quem vive além da Esplanada dos Ministérios.
A data é
dupla: além do aniversário da capital, o 21 de abril é também o Dia de
Tiradentes, feriado nacional que homenageia o mártir da Inconfidência Mineira.
Uma coincidência simbólica entre a luta pela liberdade e a construção de um
novo Brasil. Não por acaso, reconhece-se cada vez mais a relevância histórica,
cultural e arquitetônica da cidade, bem como os desafios contemporâneos ligados
ao seu desenvolvimento urbano, social e econômico.
Uma cidade nascida do planejamento
Projetada
pelo urbanista Lúcio Costa e com os principais edifícios assinados por Oscar
Niemeyer, Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960 pelo presidente
Juscelino Kubitschek. Da promessa feita em 1955 a um eleitor de Jataí, em
Goiás, até a inauguração, passaram-se menos de quatro anos — um prazo recorde
que só foi possível graças ao trabalho árduo dos candangos, operários vindos
principalmente do Norte e do Nordeste do país, muitos dos quais pagaram com a
própria saúde e até com a vida pela construção de uma capital que não foi
planejada para eles.
A previsão
de uma nova capital no interior do Brasil já estava escrita na primeira
Constituição da República, de 1891, que determinava a reserva de uma zona de
14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central. A ideia levou décadas para
sair do papel. Quando finalmente saiu, se transformou em um ícone mundial:
Brasília é, até hoje, a maior área urbana tombada como Patrimônio Cultural da
Humanidade pela Unesco.
O que mudou em seis décadas e meia
Ao longo de
mais de sessenta anos, a capital acumulou conquistas significativas. Tornou-se
o terceiro maior polo econômico do país, concentra parte expressiva das
decisões políticas que afetam todos os brasileiros e abriga uma das maiores
frotas de veículos per capita do mundo. A infraestrutura pública foi
progressivamente expandida. O sistema de transporte ganhou o metrô, o BRT e,
mais recentemente, o programa Vai de Graça, que garante gratuidade no
transporte coletivo aos domingos e feriados.
A cidade se
diversificou culturalmente. Brasília é, talvez mais do que qualquer outra
capital brasileira, feita de migrantes. Filhos de nordestinos, goianos,
mineiros, capixabas, paraenses. Gente que veio para construir e ficou para
habitar. E foi essa mistura que deu à cidade sua identidade própria, diferente
de qualquer outra.
O que ainda precisa mudar
Mas nenhum
aniversário é honesto sem autocrítica. Brasília ainda carrega contradições
profundas. A desigualdade entre o Plano Piloto e as cidades satélites é visível
a olho nu. Enquanto certas regiões concentram renda, serviços e infraestrutura
de qualidade, outras ainda lutam por saneamento básico, transporte digno e
acesso a equipamentos públicos de saúde e educação.
O trânsito
caótico é outro nó que a capital ainda não conseguiu desatar. O hábito do carro
individual está profundamente enraizado na cultura local, e as alternativas de
transporte público — embora em expansão — ainda não são atraentes o suficiente
para tirar o brasiliense da direção. A ampliação do metrô, historicamente
prometida e historicamente adiada, segue sendo uma demanda urgente da população
das regiões administrativas mais distantes.
A cidade
também precisa avançar em habitação, na valorização das periferias e na oferta
de serviços culturais e de lazer fora do Plano Piloto. O legado urbanístico de
Brasília é inegável e precisa ser preservado. Mas preservar o patrimônio não
pode ser desculpa para congelar a cidade no tempo e ignorar os que vivem além
dos cartões-postais.