“É a voz dele, então é verdade?” Como a inteligência artificial está deixando os golpes mais convincentes

Durante anos, uma das recomendações para evitar golpes por telefone ou mensagens era simples: confirme a identidade da pessoa.

O problema é que a inteligência artificial está tornando essa tarefa mais difícil.

Hoje, tecnologias capazes de produzir ou modificar áudios, imagens e vídeos com alto grau de realismo podem ser utilizadas para criar conteúdos que parecem ter sido produzidos por pessoas reais. Esses materiais são conhecidos como deepfakes.

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) publicou recentemente um estudo específico sobre o assunto e chamou atenção para aplicações que incluem clonagem de voz, imagem e identidade utilizada em golpes e fraudes.

A consequência é importante: uma voz familiar ou uma imagem aparentemente autêntica já não são, sozinhas, provas suficientes de que determinada pessoa está realmente do outro lado da conversa.

Como funciona a clonagem de voz?

De maneira simplificada, sistemas de inteligência artificial conseguem analisar características de uma gravação de voz e gerar um novo áudio que reproduz características semelhantes.

Isso cria uma possibilidade preocupante para golpes: alguém pode receber uma ligação ou mensagem de áudio que parece ser de uma pessoa conhecida.

Para a vítima, a situação pode parecer absolutamente real.

É justamente por isso que especialistas em segurança recomendam que pedidos inesperados envolvendo dinheiro, senhas, códigos ou informações pessoais sejam verificados por outro canal.

O velho golpe ganhou uma ferramenta nova

O método utilizado pelos criminosos não precisa ser completamente novo.

O conhecido golpe do “parente que precisa de dinheiro” pode simplesmente ganhar uma camada tecnológica.

Uma pessoa recebe uma mensagem dizendo que um familiar está com algum problema e precisa de ajuda. Em vez de apenas escrever a mensagem, o golpista pode utilizar recursos tecnológicos para tornar a história mais convincente.

O mesmo princípio pode aparecer em falsos contatos bancários, perfis que imitam conhecidos ou situações em que alguém tenta se passar por outra pessoa.

O Ministério da Justiça orienta que, diante de contatos suspeitos envolvendo bancos ou movimentações financeiras, o consumidor procure imediatamente a instituição pelos canais oficiais, como o aplicativo ou o telefone indicado no cartão.

A urgência é uma das principais armas

Um dos sinais que devem despertar atenção é a pressão para tomar uma decisão imediatamente.

“Preciso que você faça agora.”

“Não desligue.”

“Não conte para ninguém.”

“É urgente.”

Mensagens desse tipo procuram impedir que a pessoa tenha tempo para verificar a informação.

Por isso, quando existe um pedido inesperado, uma das melhores atitudes é interromper a conversa e confirmar a história por outro meio.

Se alguém afirma ser um familiar, por exemplo, uma ligação para um número já conhecido pode ajudar a confirmar a situação.

Se a mensagem supostamente vem de um banco, o ideal é encerrar o contato e procurar o banco pelos canais oficiais.

Nem vídeo é prova suficiente

Os deepfakes ampliam ainda mais o problema porque não se limitam ao áudio.

Uma imagem ou um vídeo pode ser manipulado para fazer uma pessoa parecer dizer ou fazer algo que nunca aconteceu.

A ANPD destaca que os deepfakes representam desafios para a proteção de dados pessoais e para a própria capacidade de distinguir conteúdos autênticos de materiais artificialmente produzidos.

Isso não significa que tudo o que aparece na internet seja falso.

Significa que imagem e som deixaram de ser evidências suficientes por si mesmos.

É necessário observar contexto, origem e fonte.

O que fazer diante de um pedido suspeito?

Algumas atitudes simples podem reduzir bastante o risco:

Pare antes de agir.
Se alguém pedir dinheiro ou informações com urgência, não faça a transferência imediatamente.

Confirme por outro canal.
Procure a pessoa por um número ou contato que você já tinha anteriormente, e não pelo contato fornecido na mensagem suspeita.

Não forneça senhas ou códigos.
Instituições legítimas não precisam que você informe sua senha bancária ou códigos de autenticação enviados ao seu telefone para “cancelar” uma operação.

Use os canais oficiais.
Se o contato disser ser de um banco, empresa ou órgão público, procure você mesmo o canal oficial.

Guarde as evidências.
Mensagens, números de telefone, horários, comprovantes e capturas de tela podem ser importantes para uma eventual denúncia.

E se a pessoa já tiver caído no golpe?

Nesse caso, rapidez é importante.

O Ministério da Justiça orienta que a vítima entre em contato imediatamente com o banco pelos canais oficiais, comunique transações que não reconhece e registre um boletim de ocorrência. Também recomenda guardar informações e evidências relacionadas ao golpe.

No caso de contas ou perfis de redes sociais invadidos ou clonados, a orientação inclui utilizar os mecanismos oficiais de recuperação da própria plataforma, avisar contatos e registrar ocorrência.

A vítima também pode monitorar movimentações financeiras e consultar o Registrato, do Banco Central, para verificar contas e empréstimos associados ao CPF.

A tecnologia também pode ajudar a combater a própria tecnologia

Existe uma ironia nessa história.

A inteligência artificial pode ser utilizada para criar conteúdos falsos, mas também está sendo pesquisada e utilizada para identificar padrões de fraude, detectar manipulações e aumentar a segurança de sistemas digitais.

O combate aos deepfakes, entretanto, não depende apenas de ferramentas automáticas.

A ANPD aponta também a importância do letramento digital, da educação midiática e da transparência para enfrentar os riscos desse tipo de tecnologia.

Para o cidadão comum, isso significa desenvolver um hábito que será cada vez mais importante: desconfiar da urgência e verificar antes de acreditar.

A voz pode ser clonada. A imagem pode ser manipulada. Um vídeo pode ser fabricado.

Mas uma confirmação feita por outro canal, utilizando um contato que você já conhece, continua sendo uma das formas mais simples de evitar que a tecnologia seja usada contra você.


Comunicação DF News

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