Inteligência artificial chega às escolas, mas educação ainda busca descobrir como usar a tecnologia

A inteligência artificial entrou definitivamente na rotina dos estudantes brasileiros. Ferramentas capazes de responder perguntas, resumir textos, explicar conteúdos e auxiliar na produção de trabalhos passaram a fazer parte do cotidiano de crianças e adolescentes.

O avanço, porém, trouxe uma pergunta que escolas, professores e famílias ainda estão tentando responder: como utilizar a inteligência artificial para melhorar a aprendizagem sem permitir que ela simplesmente faça o trabalho pelo estudante?

Os dados mais recentes da pesquisa TIC Educação 2025, divulgada pelo Cetic.br/NIC.br, mostram que 37% das escolas brasileiras de ensino fundamental e médio permitem que os alunos utilizem ferramentas de inteligência artificial em atividades educacionais. No Centro-Oeste, o percentual chega a 48%.

Ao mesmo tempo, existe uma diferença significativa entre permitir a tecnologia e estabelecer regras para sua utilização.

A pesquisa mostra que somente 22% das escolas brasileiras possuem um guia de orientações sobre o uso de inteligência artificial em atividades de ensino, aprendizagem ou gestão. No Centro-Oeste, o índice é de 27%.

Ou seja: em grande parte das escolas, a inteligência artificial já faz parte da realidade dos estudantes, mas as regras para sua utilização ainda estão sendo construídas.

O problema não é simplesmente usar IA

A discussão sobre inteligência artificial na educação costuma cair em dois extremos: liberar tudo ou proibir completamente.

Na prática, o desafio é mais complexo.

Uma ferramenta de IA pode ser utilizada, por exemplo, para explicar determinado conteúdo de outra maneira, sugerir exercícios, ajudar na organização de uma pesquisa ou apresentar exemplos que facilitem a compreensão de um assunto.

Mas o cenário muda quando o estudante simplesmente fornece o enunciado de uma atividade e entrega a resposta produzida pela ferramenta como se fosse seu próprio trabalho.

Nesse segundo caso, a tecnologia pode eliminar justamente a parte mais importante do processo educacional: o esforço de pesquisar, interpretar, escrever, errar, corrigir e construir uma resposta.

Por isso, a discussão não deveria ser apenas “pode ou não pode usar IA?”, mas “qual utilização da IA contribui efetivamente para que o aluno aprenda?”.

O professor também precisa de preparação

A chegada dessas ferramentas cria uma nova demanda para os professores.

Além de dominar o conteúdo que ensinam, eles precisam compreender minimamente como funcionam os sistemas de inteligência artificial, quais são suas limitações e como identificar situações em que o uso da ferramenta pode prejudicar o processo pedagógico.

Um dos problemas é que sistemas de IA podem apresentar respostas incorretas ou informações inventadas com aparência de verdade. O estudante que não possui capacidade de verificar fontes pode acabar incorporando um erro ao próprio trabalho.

Por isso, competências como leitura crítica, verificação de fontes e interpretação de informações ganham ainda mais importância.

O Ministério da Educação lançou em 2026 um referencial específico para orientar o uso e o desenvolvimento responsável da inteligência artificial na educação. O documento reúne princípios e recomendações para instituições, gestores e educadores, defendendo uma integração da tecnologia de maneira ética, crítica e responsável.

Centro-Oeste apresenta um cenário interessante

Os números da TIC Educação mostram que o Centro-Oeste possui uma das maiores proporções regionais de escolas que permitem o uso de IA pelos estudantes: 48%, contra 37% na média nacional.

Ao mesmo tempo, apenas 27% das escolas da região declararam possuir um guia de orientação sobre inteligência artificial.

Os números ajudam a revelar uma questão importante para Brasília e para as demais cidades do Centro-Oeste: o acesso à tecnologia pode estar avançando mais rapidamente do que a criação de regras e práticas pedagógicas para utilizá-la.

Esse descompasso não significa necessariamente que as escolas estejam despreparadas. Significa que a tecnologia está evoluindo em uma velocidade que desafia instituições de ensino a reverem continuamente suas práticas.

A IA também pode aumentar desigualdades

Outro ponto importante é o acesso.

A TIC Educação 2025 mostra que 62% das escolas brasileiras de ensino fundamental e médio possuem computador e internet disponíveis para uso dos alunos. No Centro-Oeste, o percentual chega a 76%.

Isso significa que ainda existe uma parcela de estudantes que não dispõe das mesmas condições de acesso.

A discussão sobre inteligência artificial, portanto, não pode ser reduzida a ensinar os alunos a escrever bons comandos para uma ferramenta. É necessário discutir infraestrutura, formação de professores, acesso e qualidade da informação.

Caso contrário, a tecnologia que poderia contribuir para reduzir diferenças educacionais também pode ampliar a distância entre estudantes que possuem diferentes condições de acesso e orientação.

A escola precisa ensinar a pensar

Talvez essa seja a principal mudança provocada pela IA na educação.

Durante muito tempo, o desafio era ensinar o aluno a encontrar informação. Agora, com ferramentas capazes de produzir respostas instantaneamente, torna-se cada vez mais importante ensinar o estudante a avaliar a informação que recebe.

Uma resposta produzida por uma máquina não deve ser automaticamente considerada verdadeira. O aluno precisa aprender a questionar, comparar fontes, identificar contradições e construir suas próprias conclusões.

Isso muda também o papel das avaliações. Trabalhos que podem ser completamente produzidos por uma ferramenta de IA tendem a revelar cada vez menos sobre aquilo que o estudante realmente sabe.

Para escolas e professores, o desafio será criar atividades que valorizem raciocínio, interpretação, criatividade e participação do aluno.

A inteligência artificial provavelmente continuará avançando dentro e fora das salas de aula. A questão mais importante para a educação não será impedir que os estudantes tenham contato com ela, mas ensinar esses jovens a utilizar uma tecnologia poderosa sem abrir mão da capacidade de pensar por conta própria.


Comunicação DF News

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