Elas não têm a dramaticidade de uma epidemia viral. Não fecham escolas, não lotam prontos-socorros de um dia para o outro, não geram manchetes de emergência. Mas a hipertensão arterial e o diabetes mellitus são, juntas, duas das condições de saúde mais prevalentes, mais incapacitantes e mais letais que existem — e no Distrito Federal, como no restante do Brasil, elas avançam silenciosamente sobre uma parcela crescente da população.
Chamadas de doenças crônicas não transmissíveis, a hipertensão e o diabetes compartilham características que as tornam especialmente perigosas: na maioria dos casos, não causam sintomas perceptíveis nos estágios iniciais, se desenvolvem lentamente ao longo de anos e, quando não tratadas adequadamente, levam a complicações graves e muitas vezes irreversíveis — infarto, derrame, insuficiência renal, cegueira, amputações.
A boa notícia é que ambas podem ser prevenidas, controladas e manejadas com eficiência pelo sistema público de saúde. O desafio é fazer isso em escala, com equidade e de forma sustentável.
Os números no Distrito Federal
O DF acompanha as tendências nacionais no que diz respeito às doenças crônicas. Segundo dados do sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas do Ministério da Saúde, uma parcela significativa dos adultos do Distrito Federal convive com hipertensão arterial — muitos deles sem diagnóstico ou sem tratamento adequado. O diabetes, por sua vez, afeta uma proporção crescente da população, com destaque para o diabetes tipo 2, associado ao sedentarismo, ao excesso de peso e aos hábitos alimentares inadequados.
Preocupante é o avanço dessas condições entre populações mais jovens. O que antes era considerado problema de pessoas acima dos 50 anos começa a aparecer em adultos jovens de 30 a 40 anos — reflexo de um estilo de vida cada vez mais sedentário, de uma alimentação ultraprocessada e de níveis crescentes de estresse crônico.
As desigualdades socioeconômicas se refletem também nos índices de doenças crônicas. Moradores das regiões administrativas mais periféricas do DF, com menor renda e menor acesso a alimentação saudável, espaços de lazer e serviços de saúde preventiva, apresentam prevalências mais altas e piores desfechos clínicos do que os moradores das regiões mais centrais e abastadas.
Como o SUS do DF está respondendo
A atenção às doenças crônicas no DF é organizada principalmente pela atenção primária à saúde — as Unidades Básicas de Saúde distribuídas por todas as regiões administrativas. É nas UBSs que a maioria dos pacientes com hipertensão e diabetes deve ser acompanhada, com consultas regulares, monitoramento de pressão e glicemia, acesso a medicamentos e orientação sobre estilo de vida.
O programa Hiperdia, que integra o acompanhamento de pacientes hipertensos e diabéticos na atenção básica, é a espinha dorsal dessa estratégia. Por meio do programa, os pacientes cadastrados recebem medicamentos gratuitamente, têm suas consultas agendadas com regularidade e são monitorados quanto à evolução das suas condições.
A Farmácia de Minas — programa de distribuição gratuita de medicamentos para doenças crônicas — e o componente especializado da assistência farmacêutica garantem o acesso a uma ampla gama de medicamentos anti-hipertensivos e antidiabéticos sem custo para o paciente do SUS. Esse é um dos pilares mais importantes do controle das doenças crônicas: de nada adianta o diagnóstico se o paciente não tem acesso ao tratamento.
O desafio do diagnóstico tardio
Um dos maiores obstáculos no enfrentamento da hipertensão e do diabetes é o diagnóstico tardio. Como ambas as condições frequentemente não causam sintomas nas fases iniciais, muitas pessoas convivem anos com pressão alta ou glicemia elevada sem saber — e só descobrem o problema quando uma complicação grave já se instalou.
Por isso, a triagem regular é fundamental. Medir a pressão arterial e verificar os níveis de glicose no sangue são exames simples, rápidos e gratuitos nas UBSs do DF. A recomendação dos especialistas é que adultos acima dos 40 anos realizem esses exames pelo menos uma vez por ano — e que pessoas com fatores de risco como obesidade, sedentarismo, histórico familiar ou alimentação inadequada o façam ainda mais cedo e com maior frequência.
A Secretaria de Saúde do DF realiza periodicamente campanhas de rastreamento em espaços públicos — shoppings, feiras, eventos comunitários — oferecendo medição gratuita de pressão e glicemia à população. Essas ações têm papel importante na identificação de casos não diagnosticados e no encaminhamento para a rede de atenção básica.
Prevenção: o melhor remédio
Tanto a hipertensão quanto o diabetes tipo 2 têm fatores de risco modificáveis — ou seja, que podem ser alterados por mudanças no estilo de vida. Alimentação equilibrada, com redução do consumo de sal, açúcar, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados. Prática regular de atividade física, com pelo menos 150 minutos de exercício moderado por semana. Manutenção do peso saudável. Controle do estresse. Abandono do tabagismo. Redução do consumo de álcool.
Essas mudanças, que parecem simples no papel, são profundamente desafiadoras na prática — especialmente para populações que vivem em ambientes que não favorecem escolhas saudáveis. Bairros sem calçadas ou praças para caminhar, feiras com oferta limitada de frutas e verduras frescas, rotinas extenuantes que deixam pouco tempo e energia para o autocuidado.
Por isso, a prevenção das doenças crônicas não pode ser reduzida a um problema individual de escolhas pessoais. É também uma questão de políticas públicas urbanas, alimentares e trabalhistas que criem condições para que mais pessoas possam viver de forma mais saudável.
Viver bem com a doença
Para quem já tem hipertensão ou diabetes, a mensagem mais importante é: é possível viver bem com essas condições, desde que haja acompanhamento adequado, adesão ao tratamento e suporte do sistema de saúde.
O controle efetivo da pressão arterial e da glicemia reduz dramaticamente o risco de complicações graves. Pacientes bem acompanhados têm qualidade de vida preservada e expectativa de vida próxima à da população geral. O SUS tem as ferramentas para oferecer esse acompanhamento — e a população tem o direito de exigi-lo.
A epidemia silenciosa pode ser enfrentada. Mas exige atenção, informação e um sistema de saúde que chegue a todos — sem exceção.
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